No dia 12 de junho, a Revista Época publicou uma matéria no mínimo polêmica, abordando um tema que eu também já abordei aqui no blog:
A religião, a aparência e a modificação corporal. Segue abaixo um bom trecho da reportagem denominada de: '
Deus é Pop'.
Com mais de 20
tatuagens estampadas no corpo, dois
piercings no nariz e um
alargador de orelha, a paulistana Fernanda Soares Mariano, de 19 anos, parece estar montada para um show de rock. Apenas a
Bíblia que ela carrega nos braços sugere outro destino. E Fernanda, a despeito do visual, está pronta mesmo é para encontrar Jesus.
“A igreja não pode julgar. Ela tem de estar lá para transformar sua vida, e não sua aparência”, afirma.
A igreja que Fernanda escolheu não a julga pelo figurino. Numa noite de domingo, no templo da
Bola de Neve Church do Rio de Janeiro, o que se vê são
fiéis vestindo bermudas e camisetas com estampas de surfe. Boa parte exibe tatuagens como as de Fernanda. No altar, uma banda toca música gospel, enquanto a vocalista grita o refrão
“Jesus é meu Senhor, sem Ele nada sou”.
Na plateia, cerca de 300 pessoas acompanham o show em catarse, balançando fervorosamente ao som da música. A diaconisa Julia Braz, de 18 anos, sobe ao palco de cabelo escovado e roupa fashion. Põe a
Bíblia sobre uma prancha de surfe no púlpito e anuncia: “
O evangelismo tá bombando!”. Amém.
Cultos voltados para os jovens, como
a igreja da Bola de Neve, revelam um fenômeno: mostram que
o jovem brasileiro busca formas inovadoras de expressar sua religiosidade.
Em 1882, o filósofo alemão
Friedrich Nietzsche assinou a certidão de óbito divina com a célebre afirmativa:
“Deus está morto”. Para ele, os homens não precisariam mais viver a ilusão do sobrenatural.
Nietzsche não foi o único. O anacronismo da fé religiosa era uma premissa do socialismo.
“A religião é o ópio do povo” está entre as frases mais conhecidas de
Karl Marx. Para
Sigmund Freud, a
necessidade que o homem tem de religião decorreria de incapacidade de conceber um mundo sem pais – daí a
invenção de um Deus.
A influência de
Marx e de
Freud no pensamento do século XX afastou gerações de jovens da fé. Mas a derrocada do socialismo e as críticas à psicanálise freudiana parecem ter deixado espaço para a religiosidade se manifestar, sobretudo entre os jovens.
“Aquilo que muitos acreditavam que destruiria a religião – a tecnologia, a ciência, a democracia, a razão e os mercados –, tudo isso está se combinando para fazê-la ficar mais forte”, escreveram
John Micklethwait e Adrian Wooldridge, ambos
jornalistas da revista britânica The Economist, no livro
God is back. Para os jovens, como diz o título do livro, Deus está de volta. Ou, nas palavras da diaconisa Julia,
“está bombando”.
Uma pesquisa feita por um instituto alemão mostra que 95% dos brasileiros entre 18 e 29 anos se dizem religiosos e 65% afirmam ser “profundamente religiosos”
Uma pesquisa inédita do
instituto alemão Bertelsmann Stifung, realizada em 21 países, revela que esse
renascimento da religião está mais presente no Brasil que na maioria dos países.O estudo mostra que
o jovem brasileiro é o terceiro mais religioso do mundo, atrás apenas dos nigerianos e dos guatemaltecos. Segundo a pesquisa,
95% dos brasileiros entre 18 e 29 anos se dizem religiosos e 65% afirmam que são “profundamente religiosos”.
Noventa por cento afirmam acreditar em Deus.
Milhões de jovens
recorrem à internet para resolver seus problemas espirituais. Na rede de computadores,
a diversidade de crenças se propaga como vírus.
“Na minha geração só sabia o que era budismo quem viajava para o exterior”, diz a antropóloga Regina Novaes, da Universidade de São Paulo e ex-presidente do Conselho Nacional de Juventude.
“Hoje, com a internet, o jovem conversa com todo o mundo e conhece novas religiões. A internet virou um templo.”Mais talvez do que isso, ela
se converteu no veículo ideal de uma religião contemporânea e desregulada, que pode ser exercida coletivamente sem sair de casa e sem submeter-se a qualquer disciplina. Fonte: Revista Época Online. Foto: Paola Máximo. Modelo: Fernanda Mariano